31 agosto 2014

Technochic Mixtape

A mixtape desse fim de mês não é assim tão nova. A mixagem foi feita grande parte há mais de um ano e acabou ficando arquivada no computador. Com o conteúdo do mês, em que se discutiu reformas de conceitos culturais, me pareceu adequada tirar a poeira dela, que a essa altura já é a minha favorita de todas as mixtapes, e dar os acabamentos finais. Essa mixtape é inteira de Technobrega, mas não só do jeito que muitos podem imaginar: têm desde remixes de músicas internacionais, a baladas de artistas experimentais paraenses. Apesar disso não vai faltar, claro, hits das bandas mais consagradas que a gente decorou a letra de tento tocar no rádio. Apesar do tema estar sendo abordado no blog só agora, essa não é a primeira vez que publicamos uma mixtape de música popular e de periferia: tem também a The Deselegante Mixtape, que diferentemente dessa, tem uma proposta muito mais zueira (mas não deixa de ser bem legal). Mas deixe para conferir ela depois, melhor deixar de enrolação, dar logo esse play e tremer muito!Pra baixar a mixtape é só clicar na setinha na parte superior direita do player. E para ouvir todas as mixtapes, conhecer as músicas usadas nas setlists e seguir a gente, vai lá no nossos acervos de SoundCloud (12 e 3)

30 agosto 2014

Cultura de periferia

Geralmente quando se fala de funk, arrocha, brega e afins, sempre tem alguém que torce o nariz, alegando "não ser cultura", ou que é "vulgar". Essas pessoas, por comumente encontrarem esse pensamento disseminado, o aceitam como verdade e pouco questionam de onde vem tal pensamento.

Há tempos atrás não conseguia parar de pensar nisso. Todo mundo dizia que esses ritmos eram invariavelmente ruins, mas o que tornava eles ruins?  Alguns diziam ser os ritmos, mas logo percebi não ser o caso. O funk, por exemplo, é uma música eletrônica única no mundo, que diferente da maioria dos subgêneros de eletrônico, que são tonais, é basicamente percussiva, usando samples que misturam sons sintéticos com os batuques brasileiros, e às vezes pegando algum outro elemento gravado, sendo quase que uma forma artesanal de produção do ritmo.

Passando essa questão, muitos disseram serem as letras o problema. Os funks "proibidões" são carregados de palavrões, e até alguns mais leves usam muita conotação sexual na música, o que leva muita gente a desconsiderar a validade lírica do ritmo perante ao MPB, por exemplo. É bom lembrar que música não tem um propósito único: pode falar de questões sociais e políticas, de questões metafóricas, de questões sentimentais e românticas, ou pode fazer dançar e servir para entreter também. Esse ultimo é o caso da maioria dos funks. Mas não de todas as músicas de periferia: o arrocha e o brega, por exemplo, geralmente retratam mais de amor. E, como em todo estilo, existem letras mais ou menos desenvolvidas com menor ou maior teor expressivo dentre as milhares músicas do estilo, e portanto, generalizar é só uma tentativa de descartar a validade ritmo.


Foi então que descobri, não no ramo da cultura, mas da linguística, um cara chamado Maurizio Gnerre. Ele estudava variação linguística, tentando entender como a língua mudava tanto de lugar pra lugar e de grupo social pra grupo social, e como algumas dessas variações podiam ser mais "erradas" que outras, de acordo com o censo comum. Ele chegou a conclusão que não existia como você dizer quantitativamente se um grupo variava mais ou menos da norma padrão, ou seja, não tinha essa de "falar errado" e "falar certo", é tudo linguagem coloquial. Foi aí então que ele percebeu de onde vinha a relação de valor da língua:
"Uma variedade linguística 'vale' o que 'valem' na sociedade os seus falantes, isto é, vale como reflexo do poder e da autoridade que eles têm nas relações econômicas e sociais"
Ou seja: o que faz certa fala ser considerada errada em nossa sociedade não é porque ela é gramaticalmente, sintaticamente ou culturalmente menos expressiva do que outra, mas simplesmente porque ela associada a um grupo mais excluído. E, perceba bem, essa afirmação vale não só para linguística, como também para cultura como um todo.

"Mas você não pode estar me dizendo que funk é bom!! Eu ouço, e não gosto!" Sim, é exatamente isso que estou dizendo. Assim como muitas ideias instauradas em seus respectivos períodos, como a escravidão racista e os jogos de gladiamento na política de Pão e Circo romana, as pessoas tentem a normativizar padronizações como regulares. A música da periferia não é ruim porque traz elementos pouco originais ou de menor importância, mas sim por que o conceito de bom gosto e refinamento cultural sempre esteve atrelado às elites, seja nas referências de como é a música "boa"e "ruim" de cada época, ou seja nas teorias acadêmicas, que apesar de abraçarem, sim, certos movimentos antigamente marginalizados, como o samba e a capoeira, só o fazem depois que eles deixam de representar uma resistência ao modelo sócio-cultural vigente e se transformam em uma incrementação folclórica desse modelo, que persiste inalterado.


Nesse momento invejo os EUA, que apesar de ainda ser um país de forte divisão social e de muita prática de apropriação cultural, soube investir em movimentos de grupos minoritários, transformando-os em grandes movimentos culturais do mundo todo. O rap é um ótimo exemplo, pois assim como o funk, ele surgiu de batidas sampleadas e letras não-cantadas, de estruturação bem simples e pouco familiar até aquele momento, sem contar que muitas vezes falava de assuntos agressivos e usava palavrões nas músicas. Isso não impediu, diferente do funk, do ritmo ter investimento de grandes gravadoras, ser consumido pelo grande público como qualquer outro ritmo, tocando em canais de música e festivais, consagrando-se hoje como um dos ritmos mais influentes atualmente - se não o ritmo mais influente - , com um passado cheio de ícones, sucessos e obras consagradas, e com artistas cada vez mais desenvolvendo o ritmo numa linha experimental/culta, como é o caso do Kanye West.

Ao contrário disso, os artistas de funk, brega, arrocha, rasteirinha etc. são, em sua grande maioria, independentes, tendo que construir modelos econômicos e de distribuição completamente novos só para se manterem na ativa (modelos muito interessantes, talvez gerem um post mais tarde). Aqueles poucos que conseguem chegar a uma gravadora têm, geralmente, as características musicais apagadas, trocando as batidas do funk pelas do EDM e mudando as letras. As poucas exceções podem ser contadas nos dedos, como é o caso de Gaby Amarantos.


A música e cultura pop nunca se consolidaram no Brasil, diferentemente da América do Norte, Europa e Japão, justamente porque temos tantas outras formas próprias de cultura popular que são muito influentes, mesmo que ainda mal exploradas. Passar a ver essas formas culturais com outros olhos é o primeiro passo para termos uma indústria cultural consolidada, podendo competir com outras que influenciam tanto o mundo. Provas disso são: o sucesso que essas músicas fazem fora do país, onde chegam como música alternativa, sem o valor depreciado que tem aqui dentro; e também como elas viraram matéria-prima para a produção de artistas de outros estilos, como Curumin, Gal Costa e Lucas Santtana, expandindo os horizontes e os limites do que é possível de fazer com essas músicas.

É absurdo num país como o Brasil, em que a diversidade é uma das bandeiras que carregamos, que o preconceito cultural ainda dite como abordamos a nossa produção perante às estrangeiras. E, claramente, só nós que perdemos com isso.

29 agosto 2014

Apropriação cultural e história única

Muita gente entrou esse ano em discussões, no mundo todo, sobre apropriação cultural, mesmo sem saber do que se tratava. Tanto em um episódio de How I Met Your Mother, quanto o clipe de Hello Kitty da Avril Lavigne foram acusados de racismo contra a cultura chinesa e japonesa, respectivamente. Além desses teve também a Alessandra Ambrósio usando um cocar indígena como acessório em uma foto no Instagram, gerando muita polêmica. Uma boa quantidade das pessoas não entendeu como esse tipo de construção pode ser racista, já que não tem a pretensão direta de ofender perante a características étnicas de uma pessoa específica. Esse tipo de racismo, porém, vai além de algo de tão fácil percepção, pois ele atinge mais fundo: à identidade de um povo.


Pra quem não conhece, Apropriação cultural é quando uma cultura usa aspectos de outra como acessórios à sua, num sentido bem resumido. Isso significa que tanto o contexto quanto o significado daquilo que você se apropria são descartados quando isso acontece. Sabe quando novelas como O Clone e Caminho das Índias fizeram sucesso e do nada aprendemos vários bordões que teoricamente seriam como esses povos falavam e consumimos vários produtos relacionados à essas novelas, em vestuário e decoração, sem saber direito se era assim que eles se vestiam ou decoravam nesses países, e muito menos sabendo o significado disso ser usado ou em qual contexto era usado? Então, isso é que é apropriação cultural.

"O que há de errado nisso?", você pode pensar. Para responder, posso usar um dos casos mais antigos de apropriação cultural conhecido. Durante a primeira metade do século XI até a primeira metade do século XX, no teatro e cinema americano, via-se a inserção da figura do negro nas narrativas. Mas, ao invés de atores negros nesses papéis, houve o que ficou conhecido como Blackface: literalmente, atores brancos pintavam a cara de tinta preta com bocas desenhadas como as de palhaço, gerando uma imagem vexatória e cômica da imagem do negro, ao invés de uma real representação.



O problema da apropriação cultural é que, ao tentar consumir uma cultura a partir de algo que não é dessa cultura, não temos visibilidade real das pessoas com essa identidade, e, ao invés disso, geralmente caímos em estereótipos. E todos nós sabemos bem como estereótipos podem afetar nossa sociedade: quem tá de fora associa essa ideia como a real sobre aquele grupo, ao passo que quem tá de dentro se sente limitado pelas ideias. É só lembrar de como a gente se sente como a gente é estereotipado pelos gringos, como no caso do episódio dos Simpsons ou daquele filme de terror "Turistas". Por que diabos então achamos que temos o direito de fazer o mesmo com a Índia?

Estereótipos, porém, vão além, porque eles se acumulam ao longo do tempo, formando as histórias únicas, que são hoje em dia grandes limitadores de vermos o mundo como ele é, e grande construtores de censo comum, no sentido negativo da palavra mesmo. Esse aliás é o tema de uma das palestras do TED da Chimamanda Adichie - particularmente um dos meus ídolos atuais (♥), que é obrigatória para a vida, e por isso mesmo não vale a pena ficar me extentendo no assunto, e sim que você veja o vídeo.



O filósofo Richard Rorty diz que "O processo de começar a ver seres humanos como 'um de nós' ao invés de 'eles' é, principalmente, uma questão de descrição detalhada de como pessoas não-familiares são e uma redrescrição sobre como nós mesmos somos.". As histórias - junto com objetos, músicas, comidas e expressões artísticas - podem ajudar nesse processo, mas claramente não se você tirar as pessoas e os significados delas. Desse jeito não temos cultura, e sim só uma carcaça sem nenhuma profundidade. E é preciso, de uma vez por todas, parar de confundir a carcaça com a cultura.

23 agosto 2014

Links de Sábado #8

JÁ GANHOU
O Emmy é essa semana e, se depender da divulgação (mas não só), Breaking Bad já leva todas. Isso pois o Bryan Cranston e o Aaron Paul, já conhecidos pelos fãs pelo bom humor, fizeram algumas ações fodas para o evento de sábado. Primeiro eles fizeram esse vídeo (em baixo) hilário com a Julia Louis-Dreyfus, que também está indicada, devendo ganhar de novo por Veep. No vídeo eles satirizam um desses programas reality show underground que fazem muito sucesso nos EUA, mostrando serem igualmente competentes tanto na comédia quanto no drama. Bom ver o vídeo até o fim. Depois disso, o Aaron ainda postou no Instagram que fará uma caça do tesouro por Hollywood para os fãs com roteiros, figuras de ação, pôsteres, tudo autografado. Queriamos todos estar em LA nesse momento... =/ 
-Vítor


BIZARRICE
O site BlogBlux fez uma lista Essas 10 Estátuas São Verdadeiramente Assustadoras, mostrando as estátuas mias monstruosas espelhadas pelo mundo. Quem é curioso por estas bizarrices, vale a pena conferir.
-Rodrigo


APP DA SEMANA
O número noticiado de casos de marcas de roupas usando mão de obra escrava cresce assustadoramente. De meses em meses aparece uma notícia na mídia de uma e outra irregular, às vezes até mesmo recorrentemente. Essas ações fazem o consumidor se sentir completamente desempoderado sobre como agir corretamente: ele pode até, individualmente, boicotar a marca, mas não tem como ter reais influências sobre como a marca se comportará daí para a frente, nem garantias de que a nova marca que ele consome também não age da mesma forma. Foi pra isso que foi criado o aplicativo Moda Livre, pela Repórter Brasil. Nele, o consumidor fica rapidinho sabendo a que passo está a empresa nessa causa. O mais legal é que não só o histórico da marca é levado em consideração, mas também o quanto ela se compromete com a fiscalização de fornecedores e a transparência da marca nesse quesito. Uma ótima dica antes de dar uma passada no shopping. Tem pra iOS e pra Andorid.
-Vítor


INUNDADO
O Instagram dessa semana é, definitivamente, o @funderwater, que é apesar do nome gringo é brasileiro, e imita cenas lendárias de filmes famosos debaixo de uma piscina. Eles já até mostrarm um Making Of e até tem certa produção pra fazer a brincadeira. O resultado é sensacional.
-Vítor